Viajar de avião
Andarilho desde criança, não concebo a vida sem viagem. Muitas viagens. O exilio e o trabalho como pesquisador em desenvolvimento internacional, reforçaram este estilo de vida. Mas do que gosto mesmo é viagem por terra, parando onde quiser e sentindo que a vigem está nas minhas mãos. Porem, longas distancias com compromissos de horarios não permitem isto e tenho que andar de avião, sempre apreensivo, principalmente quando ocorrem turbulências ou quando tenho que fazer horas sobre o oceano, quando a companhia aerea não me inspira confiança ou quando tenho o mesmo sentimento em relação aos aeroportos de partida e chegada. Procuro dar desconto, dizendo-me que é ansiedade decorrente dos muitos combates da vida e vou indo. Mas, enquanto de carro gosto do trajeto, de avião gosto de chegar. Desta forma, acompanho com interesse informativo qualquer noticia sobre acidentes aéreos. Fica-se sempre na duvida e só se pode dizer que - em qualquer circunstância, data ou local - o dia de amanhã é um mistério. O que dá emoção à vida, mas podia ser um pouco menos para que fosse possivel prever um pouco mais. Todos seriamos menos ansiosos. Sobre o acidente de ontem do voo AF 447 Rio-Paris, meu interesse foi maior, porque já fiz essa rota varias vezes, já fiz inumeras viagens na Air France e vou atravessar o equador muitas vezes mais. Parece que os especialistas acham insuficiente a explicação que culpa a meteorologia, por muito severa que fosse naquele preciso momento (meia hora antes outro avião passou por lá sem problema). Li no "Le Monde" online um debate sobre se o avião é mais ou menos seguro que o carro, com base em estatísticas, mas não há acordo sobre o metodo de calculo. Fazer a relação vitimas/numero de viagens ou vitimas/passageiro-km? Alguem opinou que o risco do avião seria maior porque se luta contra a gravidade. Duvido que contrariar a gravidade com técnica avançada, seja mais perigoso que andar numa estrada movimentada cercado de condutores irresponsaveis ou alcoolizados... Em numero absolutos é citado nesse debate um dado sobre o ano passado (ou 2007, não lembro bem) referindo, cerca de 2,3 bi de passageiros e um pouco mais de 500 mortes. Tambem é assinalado que há enormes diferenças entre companhias aéreas. Por exemplo, referem que a Tunis Air nunca teve acidentes e a Cubana de Aviacion teve acima da média mundial. E um dos intervenientes (francês) sublinhou com exemplos que a Air France é, no espaço europeu, uma das que teve mais, inclusive dois recentes e com centenas de mortes. Alem deste, o do Concorde. Eu podia acrecentar um desabamento de teto numa das aerogares do aeroporto Roissy, tambem há pouco tempo. Nada disto vai conter meu nomadismo. Já passei por coisas na vida que me fizeram dizer "se sair inteiro desta, nada mais me assusta". Assusta sim, mas continuo.
Escrito por Jonuel Gonçalves às 21h53
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